13 de dezembro de 2011

"a madrugada inútil me encontra numa esquina deserta; sobrevivi à noite.
as noites são ondas altivas: ondas de crista pesada, azul-escuras, carregadas de todos os tons de terra profunda, de coisas desejáveis e improváveis.
as noites são dadas a misteriosas dádivas e recusas, a coisas meio entregues, meio retidas, a êxtases com um hemisfério escuro. assim agem as noites, eu te digo.
a onda , essa noite, deixou-me os resíduos de sempre: alguns amigos odiados para conversar, música para sonhos e cinzas amargas para fumar. as coisas que em nada atendem a meu coração amargo.
a grande onda trouxe a ti.
palavras, quaisquer palavras, teu riso; e tua beleza tão preguiçosa e incessante. conversamos, e tu esqueceste as palavras.
a madrugada esmagadora me encontra numa rua deserta da minha cidade.
teu perfil voltado para o outro lado, os sons que formam teu nome, o ritmo de teu riso: esses, os ilustres brinquedos que me legaste.
eu os reviro na madrugada, e os perco, e os acho; conto-os aos raros cães vadios e às raras estrelas vadias da madrugada.
tua vida escura e rica...
preciso chegar a ti, não sei como: guardo os ilustres brinquedos que me legaste, quero teu olhar oculto, teu sorriso real - aquele sorriso solitário e zombeteiro que teu espelho frio conhece."

[1ª parte de two english poems de jorge luis borges, em "o outro, o mesmo", traduzido por paulo henriques britto]
me remete total à 02 de julho 2011 ♥

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