15 de agosto de 2011

"mais ou menos um ano atrás, me apaixonei por um disco. ou melhor, por uma música de um disco: forgetting, letra de laurie anderson para uma melodia de philip glass, em song from liquid days. uma letra muito simples: com o som da chuva, um homem acorda de repente, no meio da noite, depois de ter sonhado com antigos amores. sozinho no escuro de seu quarto, lembrando aqueles velhos amores, repete muitas vezes palavras como: bravura, gentileza, claridade, honestidade. compaixão, generosidade, dignidade.
(...)
um ano depois, agora, me apaixonei por um livro. fazia tempo que não acontecia.
(...)
são livros (mas podem ser canções, filmes, quadros, peças e, antigamente, até pessoas) que você ama tanto que quer ficar morando dentro dele, dela. quer ver toda hora. absorve o jeito do outro, e esse jeito absorvido da coisa pela qual você está apaixonado, você fica aplicando no cotidiano, feito você fosse aquela própria coisa apaixonante. que nos tira de nós, alarga.
estou perdido de amor por o mundo das maçãs, de john cheever.
(...)
leio em algum lugar que cheever, morto em 82, era alcoólatra, drogado e, além do mais, tinha um caso com um de seus assistentes. o que mais justifica e incendeia a minha paixão: felizmente, ele não era 'normal'. não era médio, não tinha medo. esse não medo de cheever transparece no que escreve: tudo tem uma grande piedade pelo humano. seja esse humano bêbado, drogado, homossexual, ou apenas mediamente suburbano, como a maioria de suas personagens, inclusive nós (eu, pelo menos, sou tão suburbano neste cosmopolitismo brega). você lê e sofre. você lê e ri. você lê e engasga. você lê e tem arrepios. você lê, e a sua vida vai-se misturando no que está sendo lido.
ler cheever desse jeito, tão tomado de paixão, durante uma semana que comportou umas barras de morte, umas barras de medo, tão pesadas, trouxe também uma força assim: não, caio f., você vai se segurar, porque esse tal de cheever aí não só segurou como criou sobre. e vamos lá. então, lendo uma visão do mundo, um dos contos do livro, ao chegar ao fim encontrei - adivinhem - nada menos que a letra de laurie anderson para philip glass. no conto, depois de pensar em seus amores passados, ouvindo a chuva um homem acorda no meio da noite - então me sento na cama, e exclamo bem alto para mim mesmo: bravura! amor! virtude! compaixão! esplendor! bondade! sabedoria! beleza!. no disco brasileiro, laurie não dá o crédito 'inspirado em john cheever'. no original, quem sabe. mas a canção está lá, para quem quiser conferir, mais que mera coincidência.
tudo isso só me prova que minhas paixões são semelhantes. amo tudo que afunda a cara na lama da vida crua e consegue arrancar o belo desse mergulho.
(...)
depois abro adélia prado e leio: 'a vida é tão bonita / basta um beijo / e a delicada engrenagem movimenta-se / uma necessidade cósmica nos protege'. depois durmo, certo de que ainda há muitas histórias para serem lidas, para serem escritas, para serem lembradas. até para serem vividas, quem sabe?

[caio f. em caderno 2, oesp, 5 de agosto de 1987]





a tal música, forgetting, está aí, e é mesmo viciante. agora estou na sanha do livro do cheever.

vão perdoando o longo texo. tentei resumir mas não consegui muito. sempre me identifico por demais com o caio.
neste caso por muitas vezes me apaixonar por algo e querer morar lá dentro. um livro, uma música, um quadro, alguém...
mas ainda me assusto quando coincidências me assombram.
"mais que meras coincidências"?

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