16 de março de 2011


(...)

"um velho cais roído
e uma fila de oitizeiros
há na curva mais lenta
do caminho para jaqueira,
onde (não está mais)
um menino bastante guenzo
de tarde olhava o rio
como se filme de cinema;
via-me, rio, passar
com meu variado cortejo
de coisas vivas, mortas,
coisas de lixo e de despejo;
vi o mesmo boi morto
que manuel viu numa cheia,
viu ilhas navegando,
arrancadas das ribanceiras."

(...)

"vivo com esta gente,
entro-lhes pela cozinha;
como bicho de casa
penetro nas camarinhas.
as vilas que passei
sempre abracei como amigo;
desta vila de lama
é que sou mais que amigo:
sou o amante, que abraça
com corpo mais confundido;
sou o amante, com ela
leito de lama divido."

(...)

"gente de olho perdido
olhando-me sempre passar
como se eu fosse trem
ou carro de viajar.
é gente que assim me olha
desde o sertão do jacarará;
gente que sempre me olha
como se, de tanto me olhar,
eu pudesse o milagre
de, num dia ainda por chegar,
levar todos comigo,
retirantes para o mar."

(...)

[trecho do lindo poema o rio - de joão cabral de melo neto]
imagem: obra de frans post

Nenhum comentário:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...